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Economia circular avança no Brasil, saiba o que é isso!

O conceito de economia circular ainda é pouco compreendido pela população brasileira. Uma pesquisa encomendada pelo Movimento Plástico Transforma ao instituto QualiBest mostra que 39% dos brasileiros nunca ouviram falar no termo. Entre os 57% que já tiveram algum contato com a ideia, apenas 12% afirmam conhecer o assunto em profundidade.

Na prática, a economia circular já está presente em setores variados da economia nacional. Ela aparece nos brechós que se multiplicam pelas cidades, nas fábricas que reaproveitam resíduos industriais e no mercado de locação de equipamentos para construção civil. O modelo se opõe à lógica linear tradicional, na qual um produto é fabricado, usado uma única vez e descartado.

Beatriz Geraldes, integrante do grupo técnico do Movimento Plástico Transforma, defende que o aprofundamento do tema precisa começar cedo. Segundo ela, crianças e adolescentes funcionam como vetores de comunicação dentro das famílias, o que ajuda a difundir práticas mais sustentáveis para além da escola.

A pesquisa Reciclagem no Brasil: Hábitos, Desafios e Percepções da População, encomendada ao QualiBest, ouviu 834 pessoas a partir de 18 anos entre 30 de abril e 8 de maio de 2026, com resultados comparados à edição anterior, de 2025. O levantamento reforça que a economia circular já deixou de ser um conceito restrito a debates acadêmicos e passou a orientar decisões de consumo e de negócio em diferentes setores da economia brasileira.

Economia circular na prática

Diferente do modelo linear de produção, em que os recursos são extraídos, usados e descartados em um único ciclo, a economia circular busca reutilizar, recuperar e reinserir materiais na cadeia produtiva. O objetivo é reduzir a extração de matéria-prima virgem e prolongar a vida útil dos produtos.

Esse modelo aparece de formas diferentes conforme o setor. Pode significar a reciclagem de uma lata de alumínio, o reaproveitamento de roupas usadas ou o aluguel de uma betoneira em vez da compra de um equipamento novo. Em todos os casos, a lógica é a mesma: extrair menos e aproveitar mais o que já existe.

A pesquisa do QualiBest mostra que o conceito de economia circular ainda enfrenta um desafio de compreensão. Dos entrevistados que já ouviram falar no tema, 45% dizem conhecer apenas superficialmente, sem entender como ele se aplica ao dia a dia.

Essa distância entre o termo técnico e a prática cotidiana ajuda a explicar por que iniciativas de economia circular muitas vezes passam despercebidas. Um consumidor que compra uma peça em um brechó ou devolve uma embalagem retornável ao mercado está, na prática, participando desse ciclo, ainda que não associe o gesto ao conceito formal.

Brasileiros conhecem pouco, mas querem mudar

Apesar do conhecimento raso sobre economia circular, a pesquisa revela disposição da população para agir. Um total de 74% dos entrevistados declarou estar disposto a mudar hábitos de consumo para gerar menos resíduo. Apenas 23% afirmaram não ter essa disposição, e 3% disseram que talvez mudassem.

A responsabilidade pela reciclagem, segundo os entrevistados, é compartilhada entre diferentes atores. A população aparece em primeiro lugar, citada por 78% dos respondentes, seguida do governo, com 63%, e das empresas, com 55%. Na comparação com a pesquisa de 2025, a cobrança por atuação de governo e empresas cresceu quatro e seis pontos percentuais, respectivamente.

Escolas e organizações não governamentais também foram mencionadas, com 35% e 30% das respostas. Marlene Treuk, gerente de pesquisa do QualiBest, avalia que já existe uma transformação prática em curso, mesmo que o conhecimento teórico sobre economia circular ainda precise avançar.

A confiança no processo de reciclagem também é alta. Mais da metade dos entrevistados, 54%, acredita que os resíduos separados são efetivamente reciclados, e apenas 6% desconfiam do processo. Ainda assim, 55% afirmam ter acesso à coleta seletiva em casa ou na rua, o que indica espaço para ampliar a infraestrutura.

A pesquisa também investigou a chamada logística reversa, prática de devolver ao fabricante um produto após o fim de seu uso para reinserção na cadeia produtiva. Do total de entrevistados, 42% afirmaram já ter devolvido algum produto ao menos uma vez, e 14% disseram fazer isso com frequência. Entre quem separa o lixo em casa mas não leva aos pontos de coleta, 63% entregam reciclável e orgânico juntos ao caminhão, enquanto 36% entregam o material já separado a catadores. O dado ajuda a entender por que a economia circular ainda depende de ajustes na infraestrutura urbana de coleta.

Moda circular impulsiona os brechós pelo país

Um dos exemplos mais visíveis de economia circular no Brasil está no mercado de roupas usadas. O país tem 118.778 brechós ativos, segundo levantamento do Jornal O Casarão, da Universidade Federal Fluminense (UFF). O número de lojas voltadas à venda de roupas usadas cresceu cerca de 31% nos últimos anos, impulsionado majoritariamente por pequenos negócios.

O crescimento dos brechós ilustra como a economia circular se traduz em oportunidade de renda para empreendedores locais. Ao vender roupas de segunda mão, essas lojas prolongam a vida útil das peças e reduzem a necessidade de produção têxtil nova, um dos setores industriais que mais consome água e gera resíduo.

Além da venda direta, o aluguel de roupas também ganha espaço como modelo de negócio ligado à moda circular. Empresas especializadas em locação de vestuário permitem que o consumidor utilize uma peça por período determinado, sem precisar comprá-la. A prática reduz o volume de roupas descartadas e amplia o acesso a itens que, de outra forma, seriam usados poucas vezes.

Esses modelos de negócio mostram que a economia circular não depende apenas de grandes indústrias. Pequenos empreendedores, muitas vezes informais no início, também compõem essa cadeia e ajudam a movimentar bilhões de reais em um mercado que tende a crescer, impulsionado pelos preços mais baixos e pelo apelo da sustentabilidade.

O crescimento acelerado do setor também reflete uma mudança de percepção do consumidor em relação à roupa usada. O que antes era associado apenas à economia doméstica passou a ser tratado como opção de estilo e consumo consciente, o que amplia o público disposto a frequentar brechós físicos e virtuais.

Indústria também recicla em grande escala

A economia circular também aparece em processos industriais que já fazem parte da rotina de produção no Brasil. O setor de reciclagem de alumínio é um exemplo consolidado: o país recicla quase 100% das latas de bebida em circulação, um índice considerado referência internacional.

Esse processo de reciclagem consome cerca de 95% menos energia do que a extração do alumínio a partir do minério. A diferença representa economia relevante de recursos naturais e energéticos, além de reduzir emissões associadas à mineração.

No setor de celulose, empresas como a Suzano reaproveitam resíduos gerados durante a produção industrial, como cinzas e lama. Esses materiais, que antes seriam descartados, são transformados em corretivos de solo utilizados no plantio, fechando um ciclo que começa e termina dentro da própria cadeia produtiva.

As embalagens retornáveis seguem lógica semelhante. Grandes marcas de refrigerante utilizam garrafas de vidro ou plástico que retornam à fábrica após o consumo, passam por processo de lavagem e voltam ao mercado reabastecidas. O modelo reduz a produção de embalagens novas a cada ciclo de venda.

A logística reversa de eletrônicos completa esse conjunto de práticas. Lojas de varejo mantêm postos de coleta para pilhas, baterias e celulares antigos, permitindo que esses materiais sejam encaminhados para reciclagem em vez de descartados de forma inadequada.

Juntos, esses exemplos mostram que o modelo já está incorporado a processos industriais consolidados, muitas vezes sem que o consumidor final perceba. A reciclagem do alumínio, em particular, funciona como referência do que pode ser alcançado quando um material tem cadeia de coleta e reaproveitamento bem estruturada em todo o território nacional.

Locação de equipamentos move a construção civil

aluguel de furadeira

Na construção civil, a economia circular se manifesta por meio do aluguel de máquinas e equipamentos, em vez da compra. O setor de locação movimenta cerca de R$ 70 bilhões por ano no Brasil e reúne aproximadamente 50 mil empresas ativas, que juntas empregam mais de 350 mil pessoas.

Esse mercado representa 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, participação superior à observada nos Estados Unidos e na Europa. O dado indica que o modelo de locação já está mais consolidado no Brasil do que em economias tradicionalmente associadas à inovação no setor de construção.

A taxa de penetração do aluguel também chama atenção. A cada dez equipamentos usados em obras no país, quatro são alugados, o que equivale a uma penetração de 40%. O modelo evita custos elevados de compra e manutenção, além de reduzir o número de máquinas ociosas ou subutilizadas ao longo do tempo.

Empresas como a LocExpress se posicionam nesse mercado oferecendo equipamentos como andaimes, compactadores e outras máquinas de obra por período determinado. A lógica é a mesma observada nos brechós e na reciclagem industrial: prolongar a vida útil de um bem e evitar que ele seja descartado ou fique parado sem uso.

A cultura do aluguel na construção civil cresce de forma consistente porque atende a uma necessidade prática do setor. Empreiteiras e profissionais autônomos evitam imobilizar capital na compra de máquinas que serão usadas por tempo limitado, e esse uso intensivo contribui para a redução no consumo de recursos usados na fabricação de novos equipamentos.

Diferente de setores como a moda ou a reciclagem de embalagens, a locação de equipamentos de construção não depende do descarte de um material antigo. O ganho ambiental aparece de outra forma: um mesmo equipamento atende a várias obras ao longo de sua vida útil, em vez de ficar parado em um canteiro depois de cumprir uma única função. Esse uso intensivo é parte do raciocínio que sustenta esse modelo também fora do universo de recicláveis.

Desafios para consolidar a economia circular

economia circular

Os dados reunidos mostram que a economia circular já movimenta diferentes setores da economia brasileira, do brechó de bairro à grande indústria de alumínio, passando pela locação de equipamentos para construção civil. Ainda assim, a pesquisa do QualiBest indica que o conhecimento sobre o conceito precisa avançar para acompanhar a prática.

O desafio, segundo os especialistas ouvidos no levantamento, está em transformar disposição em ação organizada. A maioria da população se diz disposta a mudar hábitos de consumo, mas a infraestrutura de coleta seletiva ainda não alcança todos os brasileiros, e o conhecimento aprofundado sobre o tema segue restrito a uma parcela pequena da população.

Para o consumidor, entender esses processos ajuda a identificar oportunidades já disponíveis: comprar em um brechó, alugar um equipamento em vez de adquiri-lo, ou simplesmente separar o lixo reciclável em casa. Cada uma dessas ações, isoladamente pequena, compõe um movimento maior que já move bilhões de reais na economia nacional.

O caminho apontado pela pesquisa do QualiBest é o de aproximar teoria e prática. Enquanto o termo ainda soa distante para boa parte da população, os hábitos que sustentam esse modelo já fazem parte da rotina de milhões de brasileiros, ainda que sob outros nomes: economia, reaproveitamento ou, simplesmente, bom senso.

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