Movimento anti-vacina atrapalha na prevenção de doenças. Diante deste cenário a vacina do sarampo é fundamental para evitar o aumento de casos no Brasil e no mundo. A doença, considerada eliminada do território nacional em 2016, voltou a circular, e a maior parte das ocorrências está concentrada na cidade de São Paulo. O grupo mais atingido preocupa: crianças com menos de dois anos e adultos sem histórico de imunização ou com o esquema incompleto.
Professor de Virologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rômulo Neris acompanha o cenário de perto e é direto ao apontar o caminho. Para ele, a vacina de sarampo é a ferramenta mais poderosa disponível hoje para conter o avanço do vírus e blindar a população contra as formas graves da infecção.
Uma doença antiga que nunca deixou de ser perigosa

O sarampo não é novidade na medicina. É uma enfermidade conhecida há séculos, mas essa familiaridade nunca reduziu sua capacidade de causar estrago. O vírus é altamente transmissível e pode desencadear complicações graves, sobretudo nos primeiros anos de vida. Diante desse risco, a vacina de sarampo se firmou como a resposta de saúde pública mais eficaz já desenvolvida contra a doença.
“O que a gente observa com bastante atenção é que o sarampo é uma doença antiga, mas capaz de causar complicações e sequelas graves, principalmente em crianças menores de dois anos. E o mais importante é que se trata de uma doença facilmente evitável por meio da vacinação”, afirma Neris.
A transmissão acontece de pessoa a pessoa, por via aérea, quando o doente tosse, espirra, fala ou respira. A força de contágio impressiona: segundo o Ministério da Saúde, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até noventa por cento das pessoas próximas sem imunidade. O período de transmissão vai de seis dias antes a quatro dias depois do surgimento das manchas vermelhas pelo corpo.
Os primeiros sinais aparecem alguns dias após o contato com o vírus. O quadro começa com febre alta, acima de 38,5 graus, acompanhada de tosse seca, irritação nos olhos e mal-estar intenso. Em torno de três a cinco dias, surgem manchas vermelhas no rosto e atrás das orelhas, que depois se espalham pelo corpo. A persistência da febre após as manchas é sinal de alerta para gravidade, sobretudo em crianças menores de cinco anos. É esse potencial de agravamento que torna a vacina de sarampo tão decisiva.
Os números que explicam a gravidade da doença
O sarampo carrega risco real de sequelas permanentes e de morte, e os dados do Ministério da Saúde dimensionam esse perigo. Cerca de uma em cada vinte crianças infectadas pode desenvolver pneumonia, a causa mais comum de morte pela doença entre os pequenos. A otite média aguda atinge uma em cada dez e pode gerar perda auditiva permanente. A encefalite, inflamação no cérebro, acomete de uma a quatro crianças a cada mil casos, e cerca de dez por cento delas não sobrevivem. O óbito ocorre em uma a três a cada mil crianças doentes. Diante desses números, a forma mais efetiva de evitar cada desfecho continua sendo a imunização.
Do certificado de eliminação ao retorno do vírus
O Brasil tem uma trajetória de combate à doença que merece ser lembrada. Em 1992, o país lançou um plano nacional para eliminar o sarampo do território. O esforço deu resultado: em 2016, o Brasil recebeu o certificado internacional de eliminação, um marco conquistado com décadas de campanhas apoiadas na aplicação massiva da vacina de sarampo.
O reconhecimento, porém, não foi permanente. Depois de 2016, o vírus foi reintroduzido e voltou a circular, revertendo parte do avanço obtido. O episódio atual em São Paulo é mais um capítulo dessa retomada preocupante.
Para Neris, existe uma explicação central por trás dessa reabertura de brecha para o vírus: a queda na cobertura vacinal. E o problema não se restringe ao sarampo.
“Ao longo dos últimos anos, a gente observa uma redução na cobertura vacinal da população, não só para o sarampo, mas para várias outras doenças. Isso pode acabar facilitando a circulação do vírus na população”, explica o virologista.
Quando a cobertura vacinal cai, o vírus encontra terreno
O raciocínio por trás da fala do professor se apoia num conceito conhecido como imunidade de rebanho. Quando uma parcela grande da população está protegida, o vírus não encontra pessoas suscetíveis em número suficiente para circular. Basta essa proteção coletiva diminuir para que o patógeno volte a se espalhar. É por isso que a adesão à vacina de sarampo precisa ser ampla e constante, e não pontual.
O sarampo é especialmente sensível a essa dinâmica. Por ser tão contagioso, exige índices de cobertura acima de noventa e cinco por cento para que a circulação seja interrompida. Qualquer queda relevante abre espaço para surtos como o atual. É nesse contexto que a vacina de sarampo assume papel de barreira coletiva, e não apenas de proteção individual.
A queda na procura pela imunização tem múltiplas causas, da desinformação à falsa sensação de segurança gerada pelo sucesso das campanhas anteriores. Quando uma doença some do cotidiano, parte da população subestima o risco e deixa de atualizar o esquema vacinal. O resultado é o que o Brasil enfrenta agora.
Vigilância epidemiológica: o rastreamento que interrompe cadeias

Diante do quadro, Neris defende duas frentes complementares. A primeira é o fortalecimento da vigilância epidemiológica, o monitoramento que localiza a origem de cada caso, mapeia os contatos das pessoas infectadas e verifica se há transmissão sustentada no país.
“Uma das estratégias fundamentais é fazer um monitoramento ativo e adequado dos casos de sarampo, rastreando as possíveis origens e os contatos. Alguns dos casos atuais estão relacionados a pessoas que estiveram em regiões fora do país com surtos ativos ou que tiveram contato com pessoas diagnosticadas com sarampo. Outros casos ainda estão em investigação”, detalha o pesquisador.
Esse rastreamento separa um surto contido de uma epidemia disseminada. Ao identificar rapidamente quem esteve exposto, as autoridades isolam casos, orientam contatos e aplicam doses de bloqueio antes que o vírus alcance novos grupos. O rastreamento, porém, apenas contém; quem encerra a cadeia de transmissão é a vacina de sarampo aplicada a tempo nos grupos expostos.
A segunda frente é a imunização, tratada pelo especialista como a principal ferramenta para interromper a circulação do vírus e evitar as manifestações graves da doença. As duas medidas caminham juntas: a vigilância aponta onde o vírus está, e a vacina de sarampo fecha as portas por onde ele avançaria.
A dose extra em São Paulo
Como resposta ao aumento de casos, autoridades sanitárias de São Paulo passaram a oferecer uma dose adicional da vacina de sarampo para públicos específicos. É uma estratégia de reforço diante do cenário local, mas gera uma dúvida importante, e o professor faz questão de esclarecê-la.
“É importante deixar claro que a dose extra não substitui as doses originais previstas no Plano Nacional de Imunização. Este é o momento de compartilhar informações adequadas sobre a proteção contra a infecção e contra as manifestações graves da doença”, pontua Neris.
O recado é técnico e essencial. A dose adicional funciona como reforço pontual para determinados grupos, mas não anula as doses regulares. Quem ainda não completou o esquema precisa buscá-lo, independentemente da campanha extra. A vacina de sarampo oferecida em caráter emergencial soma-se ao calendário, jamais o substitui.
Como funciona o esquema de proteção no calendário nacional
No Brasil, a proteção contra o sarampo é gratuita pelo Sistema Único de Saúde. O Ministério da Saúde a oferece em apresentações diferentes, e cabe ao profissional aplicar a mais adequada a cada pessoa. A dupla viral protege contra sarampo e rubéola e serve ao bloqueio vacinal em surtos. A tríplice viral cobre sarampo, caxumba e rubéola. A tetra viral acrescenta a varicela, a catapora.
Na rotina dos serviços de saúde, todas as pessoas de doze meses a cinquenta e nove anos têm indicação de se vacinar contra o sarampo. Adolescentes e adultos não vacinados ou com esquema incompleto devem iniciar ou completar as doses conforme o Calendário Nacional de Vacinação. A vacina de sarampo está disponível na rede pública o ano todo, não apenas em campanhas, o que facilita a regularização de quem ficou para trás.
A tríplice viral é uma vacina de vírus atenuado, com segurança e eficácia comprovadas por décadas de uso mundial. As reações costumam ser leves, como febre, dor no local e exantema, e quadros de hipersensibilidade são raros, segundo o Ministério da Saúde. Duas doses da vacina de sarampo conferem proteção próxima de noventa e sete por cento contra a infecção, patamar que poucas intervenções em saúde pública alcançam. Manter a caderneta em dia é a forma mais simples e barata de evitar que o vírus volte a circular livremente.
Quem são os mais vulneráveis neste momento
O perfil dos casos atuais mostra onde a atenção precisa se concentrar. As crianças menores de dois anos estão entre as mais expostas, porque parte delas ainda não atingiu a idade de todas as doses ou completou o esquema há pouco. Nessa faixa, as complicações também tendem a ser mais severas.
Os adultos sem histórico vacinal ou com esquema incompleto formam o outro grupo crítico. Muitos cresceram quando o sarampo já parecia controlado e nunca atualizaram a caderneta, tornando-se elos silenciosos na cadeia de transmissão. Para eles, a vacina de sarampo é a diferença entre a exposição e a proteção.
Gestantes, bebês muito pequenos e pessoas imunocomprometidas não podem receber a vacina de vírus atenuado, e dependem da imunidade coletiva para se proteger. O Ministério da Saúde orienta que gestantes não vacinadas recebam a dose no puerpério, após o parto. Em localidades com surto ativo, a vacinação pode ser antecipada para crianças de seis meses a menores de um ano, mediante avaliação das três esferas de gestão. É mais um motivo pelo qual a adesão ampla à vacina de sarampo importa tanto: cada pessoa imunizada protege também quem não pode se vacinar.
Informação correta como parte da resposta
Para Neris, conter o sarampo passa por um esforço coletivo que combina ciência, políticas públicas e comunicação responsável. A circulação de informações equivocadas sobre imunização é, para o professor, um dos fatores que ajudam a explicar a queda na cobertura vacinal dos últimos anos.
“A melhor ferramenta que a gente tem disponível neste momento para a proteção dos indivíduos é a vacinação. É importante que a gente se una e compartilhe informações corretas para reduzir a circulação do sarampo e proteger principalmente aqueles que estão mais vulneráveis”, reforça o virologista.
O apelo do especialista resume o momento. O sarampo é evitável, a ferramenta existe, é gratuita e está na rede pública. Reverter o avanço do vírus depende menos de descobertas científicas e mais de decisões cotidianas: levar a criança ao posto na idade certa, checar a caderneta e buscar a vacina de sarampo quando ela estiver em atraso.eA retomada da circulação mostra que nenhuma conquista sanitária é definitiva quando a proteção coletiva relaxa.
A boa notícia é que a resposta continua ao alcance de todos. A vacina de sarampo segue sendo a barreira mais eficaz contra uma doença que o Brasil já provou ser capaz de derrotar, e que pode derrotar de novo se a população voltar a confiar na imunização e mantiver a caderneta em dia. Proteger os mais vulneráveis começa com um gesto simples: garantir que a vacina de sarampo chegue a quem ainda não a recebeu.
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Tourdabel