O Sudeste pode registrar o dobro de casos de dengue em um segundo semestre com El Niño superforte, na comparação com um semestre sem o fenômeno. A estimativa consta em nota informativa do Ministério da Saúde enviada a estados e municípios, com base em modelos do InfoDengue, sistema de monitoramento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
O El Niño é um evento climático periódico que aquece de forma anormal as águas do Oceano Pacífico e altera o regime de chuva e de temperatura. Nas duas últimas vezes em que chegou ao Brasil em nível médio a forte, em 2015 e 2016 e em 2023 e 2024, o país enfrentou grandes epidemias de arboviroses, doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes, como os mosquitos.
Por ora, o cenário é de calmaria. Até 20 de junho, o país registrou 392,8 mil casos prováveis de dengue, ou seja, suspeitos que não foram descartados. É uma queda de 73% em relação ao mesmo período do ano anterior. A chikungunya, outra arbovirose transmitida pelo mesmo mosquito, somou 55.966 casos prováveis, com redução de 46%, segundo a nota do Ministério da Saúde.
O alerta olha para a frente. A projeção do grupo da Fiocruz indica cerca de 1,7 milhão de casos suspeitos de dengue em 2027, com margem de variação entre 1.037.068 e 5.604.927. Aplicada a taxa média nacional de descarte, de 40%, a estimativa cai para cerca de 1 milhão de casos prováveis. Como referência, em 2024 o Brasil registrou 6,5 milhões de casos prováveis, quatro vezes o total de 2023, segundo o Ministério da Saúde.
Como o El Niño faz o mosquito da dengue correr mais

O vetor da dengue, nome dado ao inseto que leva o vírus de uma pessoa para outra, é a fêmea do Aedes aegypti. Segundo o Ministério da Saúde, a transmissão ocorre principalmente pela picada dessas fêmeas infectadas.
O inseto passa por quatro etapas até virar mosquito: ovo, larva, pupa e forma adulta. Em condições favoráveis, o ciclo leva de sete a dez dias, informa a Fiocruz. Depois disso, o adulto vive cerca de 30 dias em condições normais e precisa se alimentar nesse período, segundo pesquisadores da Fiocruz. O ritmo do ciclo varia com a temperatura, com o alimento disponível e com o número de larvas no mesmo criadouro, o local com água parada onde a fêmea deposita os ovos.
O calor entra nessa conta de duas formas. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) explicam que a temperatura pode acelerar o desenvolvimento do mosquito. Um estudo liderado pelo instituto e publicado na revista Frontiers in Physiology também mostrou que o Aedes aegypti fica mais ativo e se desloca mais pelo ambiente nos dias quentes, o que favorece a transmissão.
Chuva demais ou seca demais: os dois enchem criadouros
Segundo a nota do Ministério, tanto o aumento das chuvas e da temperatura quanto a seca mais intensa em algumas regiões ampliam a oferta de criadouros. A chuva forte deixa água acumulada em recipientes descobertos. Na seca, a população reserva água para as atividades essenciais e, quando o armazenamento é inadequado, o recipiente vira foco do mosquito.
O El Niño está confirmado desde junho, e os modelos meteorológicos indicam que ele deve durar até pelo menos o início de 2027, com alta probabilidade de ser muito forte, segundo relatório do grupo da Fiocruz divulgado em 25 de agosto.
O relatório também aponta risco de insegurança hídrica, ou seja, de falta de água, por causa das secas associadas ao El Niño em parte do país.
A previsão para agosto, setembro e outubro, do Painel El Niño, elaborado por instituições meteorológicas brasileiras, indica temperatura acima da média em quase todo o país, com potencial para ondas de calor na faixa central. A chuva deve ficar abaixo do normal em boa parte do centro-norte do país, com destaque para o Nordeste, e acima do normal na maior parte do Sul.
Sudeste no radar: onde a dengue pode pesar mais
O impacto não é igual em todo o país. Segundo a nota do Ministério, o modelo indica que a Região Sudeste sofreria o maior efeito de um El Niño superforte, com o dobro de casos na comparação com um segundo semestre sem o fenômeno. O Sul poderia ter alta de cerca de 20% nos casos, e o Norte, de 10%. Para o Nordeste e o Centro-Oeste, não há efeito agravante previsto.
Na projeção para 2027, a nota indica ainda que a temporada de dengue pode ser mais intensa que a de 2025 na Paraíba, no Ceará, na Bahia, em Minas Gerais e no Distrito Federal.
O relatório de 25 de agosto reforça o Sudeste como foco, em particular a partir de outubro. Em São Paulo e em Minas Gerais, o clima mais quente e úmido pode resultar em um início de temporada mais intenso. Para o segundo semestre, a previsão é de mais notificações do que em 2025 no Sudeste e no Norte, de quantidade de casos semelhante à de 2025 no Sul e de efeito neutro ou pouco expressivo no Centro-Oeste e no Nordeste.
Até junho, Goiás, Tocantins, Minas Gerais e São Paulo concentravam 61% dos casos do país, segundo a nota. Entre maio e julho, o relatório também identificou focos de transmissão persistente no Maranhão, no Piauí e em Roraima, além de uma temporada mais longa no Ceará.
A dengue chega à nova temporada com os quatro sorotipos do vírus em circulação, ou seja, as quatro variantes conhecidas, de DENV-1 a DENV-4. O DENV-2 predomina, mas o DENV-3 avançou nos últimos meses. O Ministério lembra que epidemias de dengue costumam estar associadas à entrada de um novo sorotipo em áreas sem transmissão ou à troca do sorotipo predominante.
Os limites da previsão do aumento de casos
O próprio Ministério trata os números como estimativas epidemiológicas, construídas a partir de cenários climáticos e sujeitas a ajustes. A nota informativa afirma que as modelagens têm limitações, podem conter erros e serão atualizadas periodicamente, com possibilidade de novos alertas.
O relatório do grupo da Fiocruz detalha o que fica de fora. Os modelos não capturam de forma explícita a imunidade que a população já tem, a chegada de novos sorotipos da dengue, a cobertura de vacinação, a efetividade do controle do mosquito nem as condições socioeconômicas que aumentam a exposição ao vetor. Também não incluem a possibilidade de novas áreas serem atingidas.
Há sinais que apontam em sentido contrário ao do alarme. Entre maio e julho, o número de casos prováveis foi cerca de um terço do registrado no mesmo período de 2023, ano anterior à epidemia de 2024. Historicamente, segundo o relatório, a intensidade da transmissão no inverno se associa à intensidade da curva epidêmica do ano seguinte, porque a curva parte de condições iniciais mais adversas.
Em resumo, o fenômeno climático amplia o risco, mas as projeções descrevem cenários possíveis, e não resultados garantidos.
Sintomas da dengue: os sinais que surgem quando a febre cai
O quadro clássico começa de repente, com febre entre 39 °C e 40 °C, segundo o Ministério da Saúde. Ela vem acompanhada de pelo menos duas destas manifestações: dor de cabeça, prostração (cansaço intenso), dores musculares ou nas articulações e dor atrás dos olhos. Enjoo, moleza e manchas vermelhas no corpo também estão entre os sintomas mais comuns. Quem apresenta esse conjunto deve procurar imediatamente um serviço de saúde, orienta o Ministério. A maioria dos pacientes se recupera, mas uma parte evolui para formas graves.
A atenção precisa continuar depois que a febre baixa. Entre o terceiro e o sétimo dia da doença, podem surgir os sinais de alarme, que indicam extravasamento de plasma (a saída da parte líquida do sangue dos vasos) ou hemorragias. Os principais são dor intensa na barriga, vômitos frequentes, tontura ou sensação de desmaio, dificuldade para respirar, sangramento no nariz, nas gengivas ou nas fezes, cansaço e irritabilidade.
Gestantes, crianças de até 2 anos e pessoas com mais de 65 anos correm mais risco de complicações. Quem tem doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, também tem maior risco de evoluir para a forma grave.
Não há tratamento específico contra o vírus da dengue. O cuidado se baseia em repouso e reposição de líquidos, e o Ministério recomenda não se automedicar e buscar um serviço de urgência diante de sangramentos ou de qualquer sinal de alarme. O tratamento não depende de exame específico, pois parte das manifestações clínicas. Para apoiar o diagnóstico, há testes que identificam o vírus até o quinto dia de doença e testes de anticorpos a partir do sexto. Segundo o Ministério, a quase totalidade das mortes por dengue é evitável e depende da qualidade da assistência e da organização da rede de serviços.
Vacina da dengue: o que aconteceu com a Butantan-DV
A vacina contra a dengue do Instituto Butantan foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em novembro de 2025 para pessoas de 12 a 59 anos, em dose única. No estudo de fase 3, a etapa final de testes, conduzido entre 2016 e 2024 com mais de 16 mil voluntários de 14 estados, a Butantan-DV teve eficácia geral de 74,7%, de 91,6% contra a forma grave e com sinais de alarme e de 100% contra hospitalizações, segundo o Ministério da Saúde.
A aplicação no Sistema Único de Saúde (SUS) começou em janeiro de 2026, para profissionais da Atenção Primária, a porta de entrada do sistema, e, de forma ampliada, para pessoas de 15 a 49 anos em Botucatu (SP), Maranguape (CE), Nova Lima (MG) e na região de Araguaína (TO).
Em 8 de junho de 2026, o Ministério da Saúde e a Anvisa interromperam temporariamente a estratégia, por precaução. A farmacovigilância, o monitoramento de segurança feito depois que um produto chega à rede pública, registrou 42 casos com sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Três foram classificados como graves, incluindo dois óbitos.
O Ministério afirmou não haver informações suficientes para estabelecer relação de causalidade entre os óbitos e a vacina, e disse que a interrupção não invalida a eficácia do imunizante. O Butantan informa que os casos ocorreram entre cerca de 500 mil vacinados e que o registro segue válido.
A Anvisa instituiu um grupo de trabalho para apoiar um painel de especialistas externos que analisa os casos. O Ministério da Saúde e a Anvisa informaram que a decisão sobre a retomada depende dos resultados das investigações, e o Butantan afirma que ainda não é possível estabelecer prazo.
Em junho, o Ministério informou que a vacinação do SUS com a Qdenga, de duas doses, seguia voltada a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, faixa etária que concentra número significativo de hospitalizações por dengue.
Uma vez por semana: o intervalo que quebra o ciclo
O tempo de desenvolvimento do mosquito dá o ritmo da prevenção. Como o Aedes aegypti leva de sete a dez dias para ir do ovo à forma adulta, a Fiocruz orienta eliminar os criadouros pelo menos uma vez por semana para interromper o ciclo.
Entre as medidas contra a dengue que o Ministério da Saúde lista para a população estão remover recipientes que possam acumular água, vedar reservatórios e caixas d’água, desobstruir calhas, lajes e ralos, e usar telas nas janelas e repelentes em áreas de transmissão conhecida.
Para gestores, a nota informativa pede ações de bloqueio para conter a transmissão assim que surgirem os primeiros casos suspeitos, reorganização do trabalho dos Agentes de Combate às Endemias conforme o risco de cada área e envolvimento de setores como educação, meio ambiente e defesa civil na eliminação de criadouros, sobretudo entre as temporadas. O documento também pede a manutenção dos estoques de larvicidas e adulticidas, produtos que eliminam larvas e mosquitos adultos, para que o controle não seja interrompido.
O calendário importa. Segundo o Ministério, depois que uma epidemia se instala, o controle do mosquito mostra pouca ou nenhuma efetividade, e por isso a prevenção deve ocorrer fora da sazonalidade da dengue. O período de agosto a outubro, de transição entre as temporadas, é justamente esse intervalo, e o grupo da Fiocruz recomenda antecipar campanhas de comunicação para antes de outubro.
Tourdabel