Linha fina: Na maioria dos casos o problema é viral e melhora em cerca de uma semana; saiba diferenciar as causas, o que alivia o desconforto e quais sinais pedem avaliação médica
Por Equipe Editorial
A dor de garganta está entre os incômodos de saúde mais comuns e, quase sempre, é passageira.
Na maior parte das vezes, ela aparece junto com um resfriado ou uma gripe e melhora sozinha em cerca de uma semana, segundo a diretriz sobre o tema do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados (NICE), órgão que produz diretrizes para o sistema público de saúde da Inglaterra.
Mesmo sendo um problema conhecido, a dor de garganta ainda gera dúvidas na hora do tratamento. Uma das mais frequentes é se o antibiótico é necessário.
Na maioria das situações, não é. Esse tipo de remédio age apenas contra bactérias, e são os vírus que respondem pela maior parte das infecções na região.
Entender a origem do desconforto ajuda a escolher os cuidados adequados, a evitar o uso desnecessário de medicamentos e a reconhecer os sinais que pedem a avaliação de um profissional de saúde.
Vírus causam a maior parte das dores de garganta
A garganta reúne estruturas como a faringe, a laringe e as amígdalas, que ficam no caminho do ar que respiramos e dos alimentos que engolimos. Por estarem tão expostas, elas inflamam com facilidade e provocam dor de garganta quando entram em contato com vírus, bactérias ou agentes irritantes.
Os vírus são a causa mais comum em todas as faixas etárias, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos. Entre eles estão os mesmos agentes que provocam resfriados e gripes.
Entre as bactérias, a mais frequente é o estreptococo do grupo A, cujo nome científico é Streptococcus pyogenes. Segundo estimativas reunidas pelo CDC, essa bactéria responde por 20% a 30% dos episódios de faringite em crianças e por 5% a 15% dos casos em adultos.
É ela a responsável pela chamada faringite estreptocócica, que precisa de antibiótico.
Há ainda casos de dor de garganta que não envolvem infecção. O serviço público de saúde britânico (NHS) aponta o cigarro como um fator comum.
O otorrinolaringologista Fabrizio Romano, doutor pela Universidade de São Paulo (USP), cita também ar seco, poluição, mudanças bruscas de temperatura e esforço vocal.
Tosse e coriza costumam indicar origem viral
Os sintomas que acompanham a dor de garganta dão pistas sobre a origem do problema, mas o diagnóstico depende de avaliação profissional.
Quando a dor de garganta é viral, ela costuma surgir junto com sinais de resfriado, como nariz escorrendo, espirros, tosse e rouquidão. O CDC observa que pessoas com faringite estreptocócica normalmente não apresentam tosse, coriza, rouquidão, aftas ou conjuntivite.
Quando esses sinais estão presentes, a hipótese de vírus ganha força, e o teste para a bactéria costuma ser dispensado.
Já a infecção pelo estreptococo tende a começar de forma súbita.
Os sinais mais comuns, segundo o CDC, são febre, dor ao engolir, amígdalas vermelhas e aumentadas, às vezes com placas, gânglios doloridos na parte da frente do pescoço e pequenas manchas avermelhadas no céu da boca.
Em crianças, também podem aparecer dor de barriga, dor de cabeça, náusea e vômito.
O quadro bacteriano é mais comum entre os 5 e os 15 anos e raro antes dos 3 anos. O contato próximo com alguém infectado é o principal fator de risco, e ambientes cheios, como escolas e creches, facilitam a transmissão.
Na dúvida, o médico pode pedir um teste rápido ou uma cultura de material colhido da garganta. O CDC considera a cultura o exame de referência e recomenda que, em crianças a partir de 3 anos com teste rápido negativo, o resultado seja confirmado por ela.
Para orientar a decisão sobre antibióticos, profissionais de saúde também usam escalas de pontuação, como os critérios de Centor e o escore FeverPAIN, citados pelo NICE. Elas somam pontos para sinais como febre, pus nas amígdalas, gânglios inflamados no pescoço e ausência de tosse.
São ferramentas de uso clínico, que não servem para autodiagnóstico.
Nem toda garganta arranhando é infecção
Nem toda garganta arranhando é sinal de infecção. Segundo Romano, a irritação não infecciosa costuma provocar uma dor mais leve, descrita como arranhado ou secura, que em geral não vem acompanhada de febre nem de dores no corpo.
Nesses casos, a dor de garganta está ligada a fatores externos, como os citados pelo especialista, e não a vírus ou bactérias. Por isso, o antibiótico também não tem papel no tratamento.
O médico recomenda hidratação constante para manter as mucosas protegidas, repouso e cuidado para não forçar a voz.
Se o incômodo persistir, vale buscar avaliação.
O NHS orienta procurar um médico quando a dor de garganta não melhora depois de uma semana, quando o problema se repete com frequência ou quando aparecem caroço na boca ou no pescoço ou uma ferida na boca que dura mais de três semanas.
Antibiótico não trata dor de garganta viral
Recorrer ao antibiótico por conta própria no primeiro sinal de dor de garganta não é a escolha certa na maioria dos casos. A orientação do CDC é direta: faringite viral não deve ser tratada com antibiótico.
“Existe um mito de que toda inflamação na garganta exige um antibiótico para ser curada, o que não é verdade. A maior parte das infecções não é causada por bactérias, mas sim por vírus”, afirma Romano, em declaração divulgada pela assessoria de imprensa de uma fabricante de medicamentos para a garganta.
Segundo o médico, o uso indevido tem um custo que vai além do paciente. “Quando o paciente usa antibiótico para tratar um quadro viral, além de não resolver a dor, ele contribui para o aumento de infecções bacterianas mais resistentes”, diz.
O alerta tem dimensão global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o uso incorreto e excessivo de antimicrobianos como um dos principais motores da resistência bacteriana.
Segundo a entidade, cerca de uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo, em 2023, era resistente aos antibióticos. A resistência bacteriana foi associada a mais de 4,7 milhões de mortes em 2021.
No Brasil, a venda de antibióticos exige receita, que fica retida na farmácia. A regra está na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 471, de 2021, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que também estabelece validade de 10 dias para a receita.
Quando a infecção bacteriana é confirmada, porém, o antibiótico é indicado. O CDC lista três benefícios do tratamento correto: encurta a duração dos sintomas, reduz a chance de transmissão e diminui o risco de complicações, como abscessos na garganta e febre reumática, que são raras.
Penicilina e amoxicilina são as primeiras escolhas citadas pelo órgão, mas a definição do remédio, da dose e da duração cabe ao médico.
Hidratação e analgésicos aliviam a dor de garganta
Como a maioria dos quadros de dor de garganta é viral ou causada por irritação, o foco do cuidado é aliviar o desconforto enquanto o organismo se recupera. O NHS recomenda algumas medidas simples:
- beber bastante água;
- preferir alimentos frios ou macios;
- evitar cigarro e ambientes com fumaça;
- descansar;
- gargarejar com água morna e sal, medida que não deve ser feita por crianças;
- chupar gelo, picolé ou balas duras, sem oferecer itens pequenos e duros a crianças pequenas, pelo risco de engasgo.
Para a dor e a febre, a diretriz do NICE sugere considerar o paracetamol como primeira opção e o ibuprofeno quando for adequado para a pessoa.
O NHS lembra que alguns medicamentos não são seguros para todos, como no caso de gestantes, e recomenda ler a bula ou falar com um farmacêutico antes do uso.
No Brasil, há um cuidado extra. Em casos de suspeita de dengue, o Ministério da Saúde orienta evitar anti-inflamatórios, como ibuprofeno, nimesulida e diclofenaco, além do ácido acetilsalicílico, porque eles aumentam o risco de sangramento, conforme alerta divulgado pelo Conselho Federal de Farmácia.
Como febre e dor no corpo são comuns às duas situações, a avaliação profissional evita escolhas arriscadas.
Pastilhas aliviam, mas o efeito é pequeno
As pastilhas medicamentosas estão entre os produtos mais procurados para a dor de garganta. Elas podem conter anestésico local, anti-inflamatório ou antisséptico.
Ao revisar os estudos disponíveis, o NICE concluiu que pastilhas com benzocaína, hexilresorcinol ou flurbiprofeno podem reduzir a dor em adultos quando comparadas a placebo. A melhora absoluta, porém, foi pequena.
A orientação do órgão é que quem quiser experimentar esse recurso seja informado de que o benefício tende a ser modesto. O instituto não encontrou estudos sobre pastilhas sem medicamento nem sobre enxaguantes bucais.
O flurbiprofeno é um anti-inflamatório da mesma família do ibuprofeno. Em um ensaio clínico com 198 adultos, publicado na revista Trials em 2014, uma única pastilha reduziu a dor por cerca de três horas em comparação com placebo.
Os estudos com essa substância foram, em grande parte, conduzidos com participação da fabricante do produto, informação que deve ser considerada na leitura dos resultados.
Por ser anti-inflamatória, a pastilha com flurbiprofeno segue as mesmas cautelas dos demais remédios da classe, inclusive na suspeita de dengue.
Vale lembrar ainda que nenhuma pastilha trata a causa da infecção. Ela apenas alivia o sintoma.
Falta de ar e dificuldade para engolir pedem urgência
A maioria dos casos de dor de garganta pode ser acompanhada em casa. Alguns sinais, porém, exigem atenção imediata.
Segundo o NHS, é preciso procurar um serviço de emergência quando a pessoa:
- tem dificuldade para respirar ou não consegue engolir;
- baba, o que pode indicar incapacidade de engolir a saliva;
- faz um som agudo ao respirar, chamado estridor;
- apresenta sintomas graves que pioram rapidamente.
O serviço britânico também recomenda buscar atendimento com urgência quando a dor vem acompanhada de febre muito alta, calafrios, sinais de desidratação, como urina escura e em pouca quantidade, ou quando a pessoa tem imunidade baixa, por diabetes ou quimioterapia, por exemplo.
Quando uma criança menor de 5 anos precisa de ajuda por causa da dor de garganta, a orientação do NHS é procurar um médico, e não apenas a farmácia.
Higiene das mãos ajuda a frear o contágio
Os vírus e as bactérias que causam dor de garganta passam de uma pessoa para outra com facilidade, principalmente em ambientes fechados e cheios.
O CDC aponta a higiene das mãos e a etiqueta respiratória, que inclui cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar, como medidas que reduzem a transmissão do estreptococo.
Para quem tem faringite estreptocócica confirmada, o órgão recomenda ficar em casa, sem ir ao trabalho, à escola ou à creche, até estar sem febre e ter completado pelo menos 12 a 24 horas de tratamento com o antibiótico indicado.
Faltam dados brasileiros sobre as causas
Os percentuais que separam casos virais e bacterianos de dor de garganta vêm de estimativas reunidas por órgãos de saúde dos Estados Unidos e variam conforme a idade, a época do ano e o local. Há poucos dados nacionais que permitam afirmar a mesma proporção para a população brasileira.
Os estudos sobre pastilhas medicamentosas costumam acompanhar os pacientes por poucas horas ou dias, com amostras pequenas, e parte relevante das pesquisas com flurbiprofeno teve participação da fabricante. Por isso, as diretrizes descrevem o benefício como pequeno.
As escalas clínicas, como Centor e FeverPAIN, ajudam a estimar a chance de infecção bacteriana, mas não confirmam o diagnóstico. A confirmação depende de teste rápido ou cultura.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta com médico, farmacêutico ou outro profissional de saúde. Em caso de dúvida ou de sintomas persistentes, procure atendimento.
Tourdabel