Quase todo grupo tem alguém que anda mais quieto, mais cansado ou mais distante, e quase ninguém sabe como puxar o assunto. O medo de dizer a coisa errada costuma vencer a vontade de ajudar.
O Setembro Amarelo, campanha de prevenção do suicídio que ocupa o calendário brasileiro todo mês de setembro, oferece um pretexto legítimo para quebrar esse silêncio. Reuni oito dinâmicas para reunião de equipe, encontro de célula, pastoral ou grupo de jovens, e todas valem em qualquer época do ano.
São baratas, rápidas e nenhuma exige que alguém conte a própria história. O material cabe numa sacola: papel, caneta, fita, um pote e um novelo de barbante.
Antes das dinâmicas, os números, que explicam por que o tema merece um lugar na pauta.
Setembro Amarelo em números: o que o Brasil e o mundo mostram
O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, data criada em 2003 pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio em parceria com a OMS. No Brasil, o Setembro Amarelo ganhou projeção a partir de 2015, com o Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria. O amarelo vem de cartões com fitas dessa cor e a mensagem “se precisar, peça ajuda”, distribuídos por familiares e amigos de um jovem americano nos anos 1990.
Os dados que circulam no Setembro Amarelo ajudam a dimensionar o problema. No Ipsos Health Service Report 2025, levantamento em 30 países, 52% dos brasileiros apontaram a saúde mental como a maior preocupação de saúde, à frente do câncer, citado por 37%. Em 2018, o índice era de 18%.
Sobre ansiedade, uma estimativa da OMS de 2017, ainda muito repetida, colocou o Brasil no topo do ranking mundial, com cerca de 18,6 milhões de pessoas, ou 9,3% da população. O inquérito Covitel 2023, reunido pelo Observatório da Saúde Pública, traz um retrato mais recente: 26,8% dos brasileiros relatam diagnóstico médico de ansiedade e 12,7%, de depressão.
Ao citar esses dados no seu Setembro Amarelo, lembre que as fontes usam métodos diferentes: a estimativa da OMS trabalha com prevalência e o Covitel, com diagnóstico relatado pelas próprias pessoas, então os percentuais não se comparam diretamente.
Os números também se dividem por gênero. Entre as mulheres, 18,1% relatam diagnóstico de depressão, contra 6,9% entre os homens. As mortes por suicídio contam a outra parte da história: das 17.002 registradas em 2023, 77,9% foram de homens, segundo o mesmo Observatório. As duas fotografias se completam e mostram que o grupo inteiro merece atenção, inclusive quem nunca procurou atendimento.
O trabalho sente o peso. Os afastamentos por saúde mental cresceram em 2024, com as mulheres na maioria das pessoas afastadas, e uma pesquisa citada pela Forbes Brasil aponta que 7 em cada 10 profissionais se sentem emocionalmente sobrecarregados.
O combinado da roda: regras antes da primeira dinâmica

No cenário global, a OMS calcula que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental, e ansiedade e depressão lideram a lista. Em países de baixa renda, menos de 10% de quem precisa recebe atendimento; nas nações de alta renda, o índice passa de 50%, segundo o balanço divulgado pela ONU News em setembro de 2025. O mesmo relatório mostra que as mulheres são as mais afetadas por ansiedade e depressão, enquanto TDAH e uso de substâncias aparecem mais entre os homens.
No Brasil, o Ministério da Saúde orienta o cuidado pelo SUS por meio dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, e, no levantamento da Ipsos, 43% dos entrevistados apontam a demora para acessar tratamento como o maior problema do sistema de saúde. Nesse cenário, o grupo que se reúne toda semana na empresa ou na igreja ocupa um lugar estratégico: fica antes do consultório, no dia em que alguém percebe que também precisa de cuidado.
O combinado de uma roda de Setembro Amarelo é curto. Participar é escolha de cada pessoa. Ninguém precisa contar a própria história. O que for escrito de forma anônima continua anônimo, e ninguém tenta descobrir de quem é cada papel.
Diga logo na abertura que a roda existe para acolher e informar, ao lado do atendimento profissional e nunca no lugar dele. O anonimato protege quem ainda não está pronto para falar e deixa a pessoa mais quieta da sala participar em igualdade com as outras. Uma dinâmica bem conduzida por encontro vale por quatro apressadas.
Sempre que possível, convide um psicólogo ou uma psicóloga para conduzir ou acompanhar as dinâmicas, principalmente o semáforo e a conversa sobre o amigo, que pedem alguém preparado para responder às reflexões do grupo. Se o convite não for possível, escolha as dinâmicas mais simples e mantenha o Setembro Amarelo no tom de acolhimento, sem interrogatório.
Setembro Amarelo no trabalho: pote e mural para reunir o que já funciona

As duas primeiras dinâmicas trabalham o que o grupo já sabe fazer para se cuidar. A primeira é o pote do que me faz bem. Cada pessoa escreve num papel uma coisa simples que ajuda nos dias difíceis: ouvir música, caminhar, conversar com alguém, dormir melhor, brincar com o cachorro. Os papéis vão para o pote, alguém os lê em voz alta e o grupo ganha um banco coletivo de estratégias de cuidado. Só é preciso papel e um pote.
O fechamento pode ser uma frase como “nem tudo funciona para todo mundo, e por isso cada um amplia o próprio repertório de cuidado”. Quem ouve a lista pode encontrar ali um hábito que ainda não tinha testado.
A segunda é o mural das pequenas vitórias. Cada participante escreve uma conquista recente: levantar da cama num dia ruim, terminar uma tarefa, procurar ajuda, voltar a estudar, dizer “não”. Os papéis são colados com fita na parede, sem nome, e formam um mural anônimo. Bastam papel e fita.
A mensagem do mural é direta: conquista pequena também tem valor. Quando alguém lê na parede que outra pessoa procurou ajuda, essa decisão deixa de parecer exceção e passa a parecer caminho. Numa equipe, ele pode ficar exposto durante todo o Setembro Amarelo, e cada pessoa lê no seu tempo, sem plateia.
Rede de apoio e teia: ninguém segura o mundo sozinho
Resumo das dinâmicas: aqui!
- Pote do que me faz bem
Cada pessoa escreve em um papel uma coisa simples que ajuda em dias difíceis: ouvir música, caminhar, conversar com alguém, dormir melhor, brincar com o cachorro etc. Depois, os papéis são lidos e viram um “banco coletivo de estratégias de cuidado”.
Material: papéis + pote.
Fechamento: “Nem tudo funciona para todo mundo, mas podemos ampliar nosso repertório de cuidado.” - Minha rede de apoio
Entregue uma folha e peça para cada pessoa desenhar um círculo com seu nome no centro. Ao redor, escreve pessoas, lugares ou serviços aos quais poderia recorrer quando precisasse de apoio. Não é preciso compartilhar.
Material: papel e caneta.
Boa para: trabalhar a ideia de que pedir ajuda também é uma habilidade. - Semáforo das emoções
Faça três cartazes improvisados: verde, amarelo e vermelho. Verde representa “estou bem”, amarelo “preciso prestar atenção em mim”, vermelho “preciso procurar ajuda”. A psicóloga dá exemplos de situações e o grupo discute onde cada uma poderia se encaixar.
Material: 3 folhas.
Vantagem: educativo sem obrigar ninguém a contar a própria história. - Bilhete para um dia difícil
Cada pessoa escreve para si mesma uma mensagem curta que gostaria de ler em um dia ruim. Pode dobrar e guardar na carteira, agenda ou celular depois.
Exemplo: “Não preciso resolver tudo hoje.”
Material: papel e caneta.
É simples e costuma gerar uma reflexão boa. - Mural das pequenas vitórias
Cada participante escreve uma pequena conquista recente: levantar da cama num dia ruim, terminar uma tarefa, procurar ajuda, voltar a estudar, dizer “não”. Os papéis formam um mural anônimo.
Material: papel + fita.
Mensagem: nem toda conquista precisa ser enorme para ter valor.
O que eu diria para um amigo?
A psicóloga apresenta uma situação fictícia: “Uma pessoa está se sentindo sobrecarregada e acha que precisa resolver tudo sozinha.” O grupo responde: “O que você diria para essa pessoa?”. Depois vem a reflexão: muitas vezes somos muito mais gentis com os outros do que conosco.
Material: nenhum. - Cartões de conexão
Prepare perguntas leves, como “O que melhora seu dia?”, “Quem é alguém com quem você gosta de conversar?”, “Que atividade ajuda você a desacelerar?”. As pessoas sorteiam e respondem apenas se quiserem.
Material: pedaços de papel.
Aqui eu evitaria perguntas do tipo “qual foi seu pior momento?” ou “você já pensou em desistir?”, porque não é uma dinâmica terapêutica individual. - Teia de apoio
Com um novelo de barbante, uma pessoa segura a ponta, diz uma palavra relacionada a cuidado ou apoio e joga o novelo para outra. No fim, forma-se uma grande teia.
Material: 1 novelo de barbante.
Fechamento: visualmente funciona muito bem para mostrar que ninguém precisa sustentar tudo sozinho.
A dinâmica da rede de apoio pede uma folha e uma caneta. Cada pessoa desenha um círculo com o próprio nome no centro e escreve ao redor as pessoas, os lugares ou os serviços a que poderia recorrer quando precisasse de apoio. Ninguém é obrigado a mostrar o desenho. Como o Setembro Amarelo fala de pedir ajuda, ela treina a ideia de que pedir ajuda também é uma habilidade, e habilidade se pratica antes da urgência.
Quem termina com o círculo quase vazio descobre algo importante sobre si mesmo. Para esses casos, deixe à mão o número do CVV e o endereço do CAPS da região, que qualquer participante pode acrescentar ao desenho.
A teia de apoio é a mais visual do conjunto. Com o grupo em roda e um novelo de barbante, uma pessoa segura a ponta do fio, diz uma palavra ligada a cuidado ou apoio e joga o novelo para outra. Esta segura o fio, diz a sua palavra e joga adiante. No fim, os fios cruzados formam uma teia no meio da roda.
A imagem fala sozinha: ninguém precisa sustentar tudo sozinho. Se eu tivesse de escolher um símbolo para o Setembro Amarelo de qualquer grupo, seria esse novelo de barbante.
Semáforo e cartões: falar de emoção sem se expor
O semáforo das emoções usa três cartazes improvisados em folhas de papel: verde para “estou bem”, amarelo para “preciso prestar atenção em mim” e vermelho para “preciso procurar ajuda”. Quem conduz, de preferência uma psicóloga ou um psicólogo, apresenta situações do cotidiano e o grupo discute em qual cor cada uma se encaixaria.
Como as situações são exemplos, ninguém precisa falar da própria vida, e mesmo assim o grupo aprende a reconhecer sinais. O semáforo ensina o vocabulário do Setembro Amarelo: atenção, alerta e a hora de pedir ajuda. Três folhas resolvem o material.
Os cartões de conexão trazem perguntas leves em pedaços de papel: “O que melhora o seu dia?”, “Quem é alguém com quem você gosta de conversar?”, “Que atividade ajuda você a desacelerar?”. As pessoas sorteiam um cartão e respondem apenas se quiserem.
Aqui eu evitaria perguntas como “qual foi o seu pior momento?” ou “você já pensou em desistir?”. Numa roda de Setembro Amarelo, a pergunta leve abre portas que a pesada fecha, e conversas mais profundas pertencem ao atendimento individual, com profissional.
Bilhete e conselho ao amigo: a gentileza que sobra para os outros
Nas duas últimas dinâmicas, o foco sai do grupo e volta para cada pessoa. No bilhete para um dia difícil, cada uma escreve para si mesma uma mensagem curta, daquelas que gostaria de ler num dia ruim. Um exemplo: “Não preciso resolver tudo hoje.” Depois, dobra o papel e o guarda na carteira ou na agenda, ou tira uma foto para o celular. A dinâmica é simples e costuma render uma boa reflexão.
A outra dispensa material. Quem conduz apresenta uma situação fictícia: uma pessoa está sobrecarregada e acha que precisa resolver tudo sozinha. O grupo responde à pergunta “o que você diria para essa pessoa?”.
Depois vem a virada da conversa. Muitas vezes somos bem mais gentis com os outros do que com nós mesmos, e as palavras que acabaram de ser ditas servem também para quem as disse. Encerrar a roda de Setembro Amarelo com essa pergunta deixa o grupo com uma ideia para levar para casa.
Depois do Setembro Amarelo: o que fazer quando alguém pede ajuda
Uma dinâmica pode fazer alguém perceber que precisa de ajuda, e o grupo precisa estar pronto para isso. Materiais educativos do Setembro Amarelo listam sinais que se combinam e persistem: isolamento constante, falas de desesperança, frases como “não quero mais viver” e despedidas fora de contexto.
Na conversa que o Setembro Amarelo abre, eu evitaria frases como “isso passa” ou “tem gente pior que você”, que encerram o assunto em vez de abri-lo. Pergunte como a pessoa está, deixe o silêncio existir e agradeça a confiança. Quem lidera o grupo, seja gestor ou voluntário, tem uma função clara: ouvir e encaminhar.
Se alguém der esses sinais, chame a pessoa para conversar a sós, sem plateia, e escute sem julgar e sem dar sermão. Ofereça o CVV, que atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também por chat e e-mail. Incentive a busca por um CAPS ou por uma UPA. Se houver risco imediato, ligue para o SAMU, no 192, e fique com a pessoa até a ajuda chegar.
Se você reconhece esses sinais em si, o 188 atende você também, a qualquer hora.
Comece pela dinâmica mais simples que couber na sua sala. E escreva o número 188 num cartaz do Setembro Amarelo, ao lado do pote ou do mural, onde todo mundo possa ver sem precisar perguntar.
Tourdabel