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Plantio de café ganha força, safra pode chegar a 66,7 milhões

Plantio de café no Brasil caminha para uma safra histórica. A produção nacional é estimada em 66,7 milhões de sacas de 60 quilos, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, um avanço de 18% em relação à temporada anterior, quando o país colheu 56,5 milhões de sacas. Se confirmado, o volume será o maior da série histórica acompanhada pela Conab, superando as 63,08 milhões de sacas colhidas na safra recorde anterior.

O crescimento é favorecido pela bienalidade positiva do café arábica, pela ampliação da área produtiva e por condições climáticas mais favoráveis ao longo do ciclo. É a combinação desses três fatores, e não apenas um deles isoladamente, que explica por que a expectativa da Conab para o plantio de café supera com folga o resultado da temporada passada.

A bienalidade é um fenômeno natural do cafeeiro, que alterna ciclos de maior e menor produtividade de um ano para o outro, especialmente no caso do arábica. Quando esse ciclo positivo da bienalidade coincide com clima favorável e com mais área plantada em produção, o resultado tende a ser uma safra bem acima da média histórica, como é o caso da atual estimativa da Conab para o país.

Minas Gerais lidera a expansão do plantio de café

Entre as variedades cultivadas, o café arábica deve somar 45,8 milhões de sacas, alta de 28% frente à safra anterior, enquanto o café conilon deve chegar a 20,9 milhões de sacas, avanço mais modesto de 0,8%. Juntas, as duas variedades compõem a produção total estimada de 66,7 milhões de sacas, alta de 18% no comparativo entre as duas temporadas.

No recorte estadual, Minas Gerais deve produzir 33,4 milhões de sacas, alta de 29,8% em relação à safra anterior. O estado é o maior produtor nacional e concentra a maior parte do plantio de café arábica do país, o que faz dele o principal responsável pelo salto observado nessa variedade.

O Espírito Santo, segundo maior produtor brasileiro, pode chegar a 18 milhões de sacas, sendo 13,6 milhões de café conilon e 4,4 milhões de café arábica. A diferença entre os ritmos de crescimento dos dois maiores produtores ajuda a explicar por que o resultado nacional acompanha tão de perto o desempenho do arábica: como Minas Gerais concentra a maior fatia dessa variedade, qualquer oscilação bienal em seu território se reflete quase integralmente no total colhido pelo país.

São Paulo também se destaca na produção de arábica, enquanto Bahia e Rondônia completam o grupo dos principais estados produtores do país. Rondônia vem ganhando espaço nesse ranking por meio dos robustas amazônicos, variedade que amplia a diversidade geográfica do plantio de café brasileiro para além do eixo tradicional de Minas Gerais e Espírito Santo.

Essa diversificação geográfica é relevante porque reduz a dependência do resultado nacional em relação a um único polo produtor. Enquanto Minas Gerais concentra o grosso da produção de arábica e sofre mais diretamente os efeitos da bienalidade dessa variedade, estados como Rondônia, focados em robustas, tendem a ter uma dinâmica de produtividade menos sujeita a essas oscilações bienais, o que ajuda a estabilizar parte do resultado agregado do país de um ano para o outro.

Ainda assim, o peso relativo de Minas Gerais no total nacional segue tão elevado que o estado continuará sendo, por bastante tempo, a referência mais confiável para se antecipar o comportamento da safra brasileira a cada novo ciclo do plantio de café.

Café escapa da sobretaxa dos Estados Unidos

Em meio ao ciclo de expansão da produção, o café brasileiro ficou fora da nova sobretaxa de 25% aplicada pelos Estados Unidos a determinados produtos do Brasil. A lista revisada de exceções entrou em vigor em 22 de julho, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que confirmou que o produto não foi alcançado pelas novas sobretaxas aplicadas com base na Seção 301 da legislação norte-americana. Dessa forma, o café brasileiro segue sujeito apenas às tarifas ordinárias daquele mercado.

A isenção trouxe alívio para o setor de plantio de café depois de um período de instabilidade comercial, quando determinados produtos brasileiros chegaram a enfrentar tarifas adicionais de 40% ou 50% no mercado americano. Com o café fora da sobretaxa, os exportadores brasileiros encontram condições mais favoráveis para recuperar espaço nas marcas e nos blends dos Estados Unidos, disputando mercado diretamente com Colômbia e Vietnã, os principais concorrentes do país nesse segmento.

Essa disputa por espaço nas prateleiras americanas ganha peso adicional porque os Estados Unidos figuram entre os maiores consumidores mundiais de café, o que torna qualquer variação nas regras de acesso a esse mercado um fator capaz de influenciar diretamente a rentabilidade de quem vive da atividade no Brasil.

Apesar da exceção conquistada, o agronegócio segue acompanhando de perto as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, já que mudanças diplomáticas ou tarifárias futuras podem afetar novamente as condições de acesso do café brasileiro a esse mercado consumidor relevante. Nesse sentido, a manutenção da isenção funciona como um fator de estabilidade num momento em que o setor já lida com outras variáveis de mercado, como a oscilação cambial e o comportamento dos preços internacionais da commodity.

Manter a isenção em vigor é especialmente importante num momento em que o plantio de café caminha para um volume recorde de produção, já que qualquer barreira tarifária adicional reduziria a competitividade do produto brasileiro justamente quando o país tem mais café disponível para exportar. A combinação entre safra maior e acesso preservado ao mercado americano forma, por ora, um cenário favorável para o setor exportador.

Exportações caem em volume, mas batem recorde em receita

O Brasil exportou 41,9 milhões de sacas de café na temporada anterior, uma queda de 17,1% em relação ao ano retrasado. Mesmo com a redução no volume embarcado, a receita atingiu o recorde de 16,1 bilhões de dólares, um crescimento de 30,3%, resultado impulsionado pela alta de 57,2% no valor médio do produto brasileiro no mercado internacional.

Essa alta expressiva no valor médio da saca exportada ajuda a explicar por que a receita conseguiu bater recorde mesmo com menos volume embarcado, evidenciando que o mercado internacional remunerou melhor cada saca vendida na comparação com a temporada anterior.

Nos primeiros quatro meses do ano corrente, o país exportou 11,5 milhões de sacas, uma retração de 22,5% na comparação anual. A Conab projeta, no entanto, uma recuperação dos embarques no segundo semestre, favorecida justamente pelo aumento esperado no plantio de café para a nova safra.

O contraste entre a queda no volume exportado e o recorde de receita mostra que o mercado internacional de café atravessa um momento de preços elevados, capaz de compensar, em termos financeiros, uma retração real na quantidade de sacas embarcadas. Se a produção recorde da nova safra se confirmar, a expectativa é que o Brasil consiga voltar a ganhar volume nas exportações sem necessariamente perder a receita elevada obtida com a valorização recente do produto.

Safra recorde pode pressionar os preços internos

O plantio de café recorde e o avanço da colheita podem aumentar a oferta disponível e pressionar as cotações internas do café para baixo, um movimento que a Conab já identificava nos preços recebidos pelos produtores. Ainda assim, uma safra maior não significa redução imediata do preço nas gôndolas dos supermercados.

O valor pago pelo consumidor final também depende de outros fatores, como a cotação do dólar, os preços internacionais da commodity, os estoques globais disponíveis, os custos industriais de torrefação e moagem, o valor das embalagens, a logística de distribuição e as margens aplicadas pelo varejo. Um aumento expressivo na produção, portanto, tende a afetar mais diretamente o produtor rural do que o preço final pago pelo consumidor no curto prazo.

Para quem vive do plantio de café, a pressão de baixa nas cotações internas costuma ser sentida de forma mais imediata, já que o preço recebido pelo produtor reage com mais rapidez ao volume de oferta disponível no mercado interno. Já para o consumidor final, o preço na prateleira tende a levar mais tempo para refletir a expansão do plantio de café, justamente por depender dessa cadeia mais longa de custos que vai muito além do valor pago diretamente ao produtor rural.

Como era o plantio de café na safra anterior

O plantio de café no Brasil na temporada anterior gerou uma produção estimada em 56,5 milhões de sacas, resultado 4,3% superior ao da temporada retrasada. Foi a terceira maior safra da série histórica da Conab, mesmo em um ano de bienalidade negativa para o café arábica, característica que normalmente reduz a produtividade dessa variedade em ciclos alternados.

O Valor Bruto da Produção do café foi estimado em 114,86 bilhões de reais, um crescimento de 46,2% em relação ao ano anterior, avanço influenciado principalmente pela valorização do produto no período, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Esse salto no valor bruto mostra que, mesmo em anos de produtividade mais contida por conta da bienalidade, o resultado financeiro do setor pode continuar crescendo puxado pelo preço.

Esse descolamento entre volume produzido e valor gerado é um padrão que se repete em diferentes momentos da cadeia do plantio de café. Assim como aconteceu nas exportações, em que a receita bateu recorde mesmo com queda no volume embarcado, o valor bruto da produção também cresceu com força numa safra que, em termos de quantidade colhida, não foi necessariamente a maior da história. O fator preço, nos dois casos, se mostrou mais determinante para o resultado financeiro do que o volume produzido isoladamente.

Brasil é o segundo maior consumidor mundial

Além de produtor, o Brasil também é o segundo maior consumidor mundial de café em volume absoluto, atrás apenas dos Estados Unidos. O mercado brasileiro consumiu 21,409 milhões de sacas, quantidade correspondente a 37,9% de toda a produção nacional, com uma diferença para os Estados Unidos, líderes do ranking, de aproximadamente 5 milhões de sacas. O café está presente em 98% dos lares brasileiros, segundo os Indicadores da Indústria de Café, levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café.

O consumo per capita no país chegou a 6,02 quilos de café cru por habitante ao ano, ou 4,82 quilos de café torrado e moído, o equivalente a aproximadamente 1.400 xícaras por pessoa ao ano, uma média próxima de quatro xícaras por dia. O consumo per capita brasileiro de café cru é superior ao dos Estados Unidos, estimado em 4,9 quilos por habitante ao ano, ainda que o volume absoluto americano permaneça maior por conta do tamanho da população do país.

Embora Brasil e Estados Unidos liderem o consumo em volume absoluto, o ranking muda de figura quando o cálculo divide o consumo total pela população de cada país. Nesse recorte, países europeus, principalmente os nórdicos, aparecem nas primeiras posições mundiais, com Finlândia, Noruega e Islândia entre os territórios conhecidos pelo elevado consumo de café por habitante. Isso mostra que o Brasil bebe muito café pelo tamanho da sua população, enquanto os países nórdicos se destacam pela quantidade consumida individualmente.

Esse duplo protagonismo do país, como grande produtor e como grande consumidor ao mesmo tempo, é um dos traços mais particulares do plantio de café brasileiro. Poucos países combinam liderança mundial em plantio de café com um mercado interno tão relevante, o que significa que boa parte do café colhido no território nacional nem chega a sair das fronteiras do país, sendo consumida pela própria população em casas, cafeterias e ambientes de trabalho espalhados pelas cinco regiões.

Esse contraste ajuda a colocar em perspectiva o peso do consumo interno sobre a expansão recente do plantio de café no território nacional, já que um mercado doméstico forte funciona como uma espécie de colchão de segurança para o setor, absorvendo parte da produção mesmo em cenários de instabilidade no comércio internacional, como o enfrentado recentemente com as negociações tarifárias entre Brasil e Estados Unidos.

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