Produção industrial voltou a decepcionar no último resultado trimestral divulgado pelo IBGE. Enquanto o Produto Interno Bruto avançou 0,5% no período, a indústria cresceu apenas 0,1%, um ritmo bem abaixo do registrado pela agropecuária, que avançou 2,8% no mesmo intervalo. O contraste entre os três setores da economia mostra que o fôlego do crescimento nacional segue vindo de fora do parque fabril brasileiro.
Segundo estimativas do Sistema de Contas Nacionais Trimestrais, o PIB acumulado em quatro trimestres cresceu 1,9%, num cenário em que o desemprego medido pela Pnad Contínua ficou em 5,4% e a inflação mensal do IPCA registrou alta de 0,07%. É dentro desse quadro macroeconômico mais amplo que o desempenho fraco da produção industrial chama atenção como um ponto fora da curva.
Com uma população estimada em 214.211.951 pessoas, o Brasil segue como uma das maiores economias em desenvolvimento do mundo, mas o ritmo de expansão da sua base fabril não acompanha o tamanho desse mercado interno. Enquanto o desemprego relativamente contido e a inflação mensal baixa sugerem certa estabilidade macroeconômica, a produção industrial isolada aparece como o elo mais fraco dessa cadeia de indicadores no período mais recente.
Produção industrial perde espaço na composição do PIB
A participação da indústria no PIB brasileiro está atualmente em 23,4%, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria. O setor de serviços, por outro lado, representa 70% de toda a riqueza produzida em território nacional, liderando o ranking com grande distância em relação à indústria, de acordo com estudo da Universidade de São Paulo.
Para o professor Alex Ferreira, da FEA-RP, a solução para reverter esse quadro se aplica a mais de uma frente. Segundo ele, uma economia e uma indústria fortes, mesmo que essa indústria tenha uma menor participação relativa, vão depender dos mesmos fatores que levam ao crescimento econômico como um todo. Para que a produção industrial volte a ganhar peso na composição do PIB, o professor defende investimento em itens como nível educacional, facilidade de empreender no país, capacidade de inovação, qualidade da saúde e da mão de obra, e estabilidade institucional.
Essa leitura ajuda a explicar por que soluções isoladas, voltadas apenas à produção industrial, dificilmente resolvem o problema da baixa participação do setor no PIB. Se os fatores que sustentam o crescimento são compartilhados por toda a economia, uma política pensada exclusivamente para a indústria, sem tocar nesses fundamentos mais amplos, tende a ter efeito limitado sobre o resultado do setor no longo prazo.
A distância entre os 23,4% de participação da indústria e os 70% do setor de serviços mostra o tamanho da reconfiguração que a economia brasileira atravessou nas últimas décadas. Enquanto o setor de serviços consolidou posição de liderança folgada, a produção industrial segue tentando recuperar espaço num ambiente em que outros setores, como a agropecuária, mostraram desempenho recente mais dinâmico.
Setor extrativo puxa o resultado para cima
Dentro da própria produção industrial, o desempenho não é uniforme entre os segmentos. O setor extrativo apresentou desempenho positivo, impulsionado principalmente pelo aumento da produção de petróleo e gás, em um contexto de instabilidade no mercado internacional de energia. Já o setor de bens de capital cresceu 1,4%, também demonstrando sinais de desaceleração em relação a períodos anteriores.
Os indicadores de expectativas reforçam esse cenário de cautela. O índice de gerentes de compras calculado pela S&P caiu abaixo de 47 pontos, sinalizando redução da demanda, aumento dos custos e incertezas externas para o setor. Já o índice de intenção de investimento da CNI recuou para 52 pontos, influenciado pelos juros elevados, pelos custos de produção e pelas importações de máquinas e equipamentos, o que sugere que a fraqueza da produção industrial não deve se limitar a um único trimestre isolado.
Quando um índice de gerentes de compras fica abaixo da marca dos 50 pontos, a leitura padrão do mercado é de contração na atividade do setor medido, e não apenas de desaceleração no ritmo de crescimento. Combinado com a queda no índice de intenção de investimento da CNI, esse conjunto de sinais antecipa que os próximos resultados da produção industrial tendem a seguir pressionados, a menos que o cenário de juros e custos de produção mude de patamar nos próximos trimestres.
Tarifaço americano pesa sobre exportadores paulistas
Parte da desaceleração recente da produção industrial brasileira está ligada ao aumento das barreiras comerciais impostas por grandes economias, especialmente pelos Estados Unidos. Segundo a Fiesp, 70% do setor paulista que exporta para os Estados Unidos perdeu pedidos em razão do tarifaço americano, que somou uma tarifa de 25% a uma taxa adicional de 12,5% sobre esse percentual, resultando numa alíquota efetiva de 37,5% para parte das exportações paulistas.
O governo norte-americano oficializou a aplicação dessa nova tarifa sobre uma série de produtos brasileiros após recomendação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, no âmbito de uma investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial americana. O efeito já chegou à produção, 41,4% das indústrias paulistas reduziram o uso da capacidade instalada, e o mesmo percentual passou a negociar preços com os clientes afetados pelas novas tarifas.
Outros 31% das empresas suspenderam ou adiaram investimentos em razão da instabilidade comercial, embora 55,2% delas não tenham feito alterações no quadro de funcionários até o momento, o que sugere que o ajuste, por ora, está concentrado em capacidade produtiva e investimento, e não em desligamentos em massa.
Esse padrão de resposta, reduzir capacidade instalada e renegociar preços antes de cortar postos de trabalho, costuma ser a primeira linha de defesa de indústrias diante de um choque comercial repentino. Se a instabilidade tarifária persistir por tempo suficiente, no entanto, a pressão tende a se deslocar também para o emprego, o que torna o comportamento dos próximos meses um indicador importante para saber se o impacto do tarifaço vai se aprofundar além do que já foi registrado até aqui.
Custo Brasil segue como entrave estrutural
A Confederação Nacional da Indústria também tem identificado sinais de desvio nos fluxos de comércio internacional em razão das barreiras comerciais entre grandes economias. No Sudeste Asiático, o volume importado pelo Brasil da Indonésia chegou a crescer 72,8% na comparação anual em determinado mês, enquanto as importações vindas da Tailândia subiram 31,4% no mesmo período, um movimento que a CNI associa à realocação de rotas comerciais globais.
A entidade também aponta que o Brasil utiliza muito menos medidas compensatórias contra produtos de diversos países, inclusive chineses, do que outras grandes economias, o que significa que o país tem instrumentos ainda pouco explorados para enfrentar distorções provocadas por subsídios estrangeiros. Nesse contexto, a CNI propõe uma sétima missão para o programa Nova Indústria Brasil, dedicada à internacionalização do setor, com metas, financiamento e coordenação entre comércio, investimento e inovação, além de combate ao chamado Custo Brasil, precificado em cerca de 1,7 trilhão de reais por ano.
Pirataria e contrabando também corroem o setor
Além da concorrência externa e das barreiras tarifárias, a produção industrial brasileira enfrenta outro desafio relevante, o do mercado ilegal dentro do próprio país. A Confederação Nacional da Indústria aderiu ao Movimento Brasil Legal, iniciativa que reúne mais de 40 instituições em torno do fortalecimento do combate à pirataria, ao contrabando, à falsificação e a todas as formas de comércio ilegal, reunidas em um manifesto com dez pactos de Estado contra o mercado ilegal e a favor da soberania econômica.
Segundo pesquisa da própria CNI, o mercado ilícito custa mais de 107 bilhões de reais por ano à indústria brasileira. Um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade estimou que o mercado ilegal provocou, no país, perdas de mais de 470 bilhões de reais em um único ano recente, um volume que ajuda a dimensionar o quanto a concorrência desleal interna também pesa sobre um setor que já enfrenta baixo crescimento, tarifas externas e disputa por espaço na composição do PIB nacional.
Colocando esse número ao lado do Custo Brasil, estimado em 1,7 trilhão de reais por ano, fica claro que boa parte do entrave enfrentado pela indústria nacional não vem apenas de fatores externos, como tarifas americanas ou concorrência asiática, mas também de problemas estruturais dentro do próprio país, que vão da burocracia à pirataria, passando pela carga tributária e pelo ambiente regulatório enfrentado por quem decide investir em produção industrial em território brasileiro.
Drones mostram outra face da produção industrial
Nem tudo no panorama industrial brasileiro é desaceleração. O país tem 177 mil drones cadastrados na Agência Nacional de Aviação Civil, com cerca de 10 mil novos registros por mês, equipamentos usados em atividades como agronegócio, saúde pública, segurança pública, manutenção urbana e defesa nacional. A expansão desse mercado específico, no entanto, também envolve desafios regulatórios, tecnológicos e de desenvolvimento da própria indústria nacional do setor, além de exigir articulação entre governo e setor produtivo, segundo debate promovido pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado.
Esse tipo de nicho tecnológico emergente mostra que, mesmo dentro de um cenário geral de crescimento fraco, existem segmentos específicos crescendo em ritmo mais acelerado. A dificuldade, segundo os próprios debates promovidos no Congresso, está em transformar esses nichos em motores relevantes o suficiente para influenciar o resultado agregado do setor, hoje ainda dominado pelo desempenho mais modesto dos segmentos tradicionais de manufatura.
A comparação entre o crescimento de dois dígitos observado mês a mês no cadastro de drones e o avanço tímido de 0,1% da produção industrial como um todo ilustra bem a distância entre as pontas mais dinâmicas da economia tecnológica e o núcleo tradicional da manufatura brasileira. Enquanto esse núcleo segue represado por juros altos, tarifas externas e um ambiente regulatório considerado pesado pelas próprias entidades do setor, nichos específicos ligados à tecnologia continuam encontrando espaço para se expandir, ainda que em escala menor dentro do resultado agregado da indústria nacional.
Reunidos, os indicadores mais recentes mostram uma produção industrial brasileira espremida entre baixo crescimento doméstico, concorrência externa mais agressiva e um ambiente de negócios que a própria indústria classifica como oneroso. Reverter esse quadro, segundo as entidades do setor, depende menos de medidas pontuais e mais de uma agenda ampla que combine competitividade externa, segurança jurídica e redução dos custos que hoje pesam sobre quem produz dentro do país.
Tourdabel