Tráfico de drogas é o crime que mais cresce entre os indicadores acompanhados pelo Mapa da Segurança Pública, publicação do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O Brasil registrou 215.716 ocorrências desse tipo, o maior valor de toda a série histórica analisada, um aumento de 17,05% na comparação com o total anterior, de 184.291 registros. Na prática, isso equivale a uma média de 591 ocorrências por dia em todo o território nacional.
O salto no número de casos acompanha também um movimento relevante nas apreensões de drogas, ainda que em direções opostas conforme a substância. Enquanto a quantidade de maconha apreendida cresceu, a de cocaína recuou, um contraste que ajuda a entender a dinâmica mais recente do mercado ilegal de drogas no país. Esse movimento em sentidos opostos mostra que tratar o tráfico de drogas como um bloco único de estatísticas pode esconder tendências distintas entre substâncias, cada uma respondendo a fatores próprios de produção, rota e demanda.
Esse recorde de ocorrências não surge isolado. Ele aparece justamente no momento em que organismos internacionais reavaliam o peso do Brasil dentro da rota global da cocaína, o que reforça a ideia de que o tráfico de drogas, embora medido nacionalmente, tem raízes e desdobramentos que ultrapassam a fronteira do país.
Onde o tráfico de drogas mais registra ocorrências
A distribuição regional das ocorrências de tráfico de drogas está longe de ser uniforme. O Sudeste concentrou a maior parte dos registros, com 105.975 ocorrências, o equivalente a aproximadamente 49,1% do total nacional. Na sequência aparecem as regiões Sul, com 39.234 ocorrências, e Nordeste, com 39.229, cada uma respondendo por cerca de 18,2% dos casos do país. Centro-Oeste e Norte fecham a lista, com 17.658 e 13.620 registros, respectivamente.
Essa concentração no Sudeste reflete, em parte, o peso populacional e econômico da região dentro do país, mas também aponta para uma característica do próprio crime, sua ligação direta com grandes centros urbanos e rotas logísticas de distribuição. No recorte estadual, São Paulo lidera com folga, somando 45.507 ocorrências, seguido por Minas Gerais, com 33.853, Rio de Janeiro, com 21.066, Rio Grande do Sul, com 17.993, e Paraná, com 13.983.
O fato de Sul e Nordeste aparecerem praticamente empatados, com 39.234 e 39.229 ocorrências respectivamente, apesar de perfis econômicos e geográficos bastante diferentes entre as duas regiões, reforça que o tráfico de drogas não segue um padrão único de expansão. Em vez disso, ele se adapta às condições logísticas e de mercado de cada território, o que explica por que regiões com características tão distintas podem registrar volumes de ocorrências tão próximos.
Chama atenção que quatro dos cinco estados com mais ocorrências pertencem justamente às regiões Sudeste e Sul, reforçando que o eixo mais dinâmico economicamente do país também concentra a maior parte da movimentação relacionada ao tráfico de drogas. Já a presença de Minas Gerais na segunda posição do ranking estadual, à frente até do Rio de Janeiro, sugere que a extensão territorial e a diversidade de rotas rodoviárias que cortam o estado também pesam na contabilização das ocorrências, e não apenas o tamanho da população ou da economia local.
A diferença entre a liderança de São Paulo, com mais que o dobro das ocorrências de Minas Gerais, e o quinto colocado, Paraná, com menos de um terço do total paulista, mostra o quanto a distribuição do tráfico de drogas é desigual mesmo entre os estados mais afetados. Enquanto alguns concentram grande parte da atividade em capitais e regiões metropolitanas densamente povoadas, outros distribuem as ocorrências ao longo de corredores rodoviários que conectam diferentes regiões do país, o que exige estratégias de fiscalização adaptadas à realidade específica de cada território.
Apreensões de maconha sobem, cocaína recua
O Brasil apreendeu 1.454.133 quilos de maconha, um aumento de 3,10% em relação ao total anterior, de 1.410.442 quilos, o equivalente a uma média diária de aproximadamente 3.984 quilos apreendidos em todo o país. Já as apreensões de cocaína seguiram caminho inverso, somando 127.552 quilos, uma redução de 8,39% frente aos 139.237 quilos anteriores, com média de 349 quilos por dia.
Esse movimento de sinais opostos entre as duas substâncias mais apreendidas no país pode refletir mudanças na rota de distribuição, na origem da droga ou na própria estratégia de fiscalização das forças de segurança, sem que um único fator explique isoladamente o comportamento de cada substância. O que os números deixam claro é que o crescimento do tráfico de drogas como ocorrência registrada não caminha necessariamente junto com o volume total de droga apreendida, já que se trata de duas métricas com lógicas distintas.
A quantidade apreendida depende diretamente da capacidade operacional das forças de segurança em determinado período, enquanto o número de ocorrências registradas reflete tanto a atividade criminosa quanto o esforço de policiamento e investigação. Um aumento de ocorrências pode, portanto, sinalizar tanto crescimento do crime quanto intensificação da fiscalização, o que reforça a importância de olhar para os dois indicadores, casos registrados e quilos apreendidos, de forma conjunta e não isolada.
Brasil é rota central para cocaína andina
Para além dos números nacionais, o Brasil também aparece mal posicionado num retrato internacional do tráfico de drogas. O Índice Global de Crime Organizado, que avalia os 193 Estados-membros da Organização das Nações Unidas e atribui notas de 1 a 10 por mercado ilegal específico, coloca o país entre as principais rotas mundiais de tráfico de cocaína. A Colômbia lidera esse recorte com nota 9,50, na condição de maior produtor global, enquanto Brasil, México, Peru e Venezuela aparecem empatados com nota 9,00, cada um desempenhando um papel diferente na cadeia internacional da droga.
No caso brasileiro, o papel destacado pelo índice é o de rota central de escoamento da cocaína produzida em países andinos, como Bolívia, Peru e Colômbia, com destino à Europa e à África. Essa posição geográfica estratégica é explorada por facções como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, que usam o território nacional como corredor logístico para o mercado internacional. O país também registrou piora nos índices gerais de prevalência de crime organizado no mesmo levantamento.
A nota 9,00 atribuída ao Brasil, apenas meio ponto abaixo da Colômbia, maior produtor mundial, mostra que o papel do país na cadeia internacional do tráfico de drogas vai muito além de uma rota secundária de passagem. Estar tecnicamente próximo do país de origem da cocaína, mesmo sem produzir a substância em escala relevante, evidencia o quanto a extensão territorial brasileira e sua proximidade com os países andinos tornam praticamente inevitável o envolvimento do território nacional na logística internacional da droga.
O fato de o Brasil aparecer também como segundo maior consumidor da droga na região, e não apenas como corredor de passagem, ajuda a explicar por que o tráfico de drogas se consolidou como negócio permanente para as facções que atuam no país. Um mercado interno relevante somado à posição estratégica de rota internacional cria um cenário em que a atividade criminosa encontra tanto demanda local quanto infraestrutura logística para o escoamento externo, o que torna o combate ao problema mais complexo do que enfrentar apenas produção ou apenas consumo isoladamente.
México, Peru e Venezuela completam o quadro
Cada um dos países que dividem a segunda posição do ranking desempenha uma função distinta na engrenagem do tráfico internacional de cocaína. O México funciona como hub logístico fundamental no trajeto rumo aos Estados Unidos, o Peru se destaca como grande produtor de folha de coca, e a Venezuela opera como plataforma de escoamento aéreo e marítimo da droga produzida na região andina.
Essa divisão de papéis ajuda a entender por que o combate ao tráfico de drogas dificilmente pode ser tratado como um problema exclusivamente nacional. Cada elo da cadeia, produção, processamento, transporte e distribuição, está espalhado por diferentes países, o que exige cooperação internacional para que qualquer estratégia de enfrentamento tenha efeito real sobre o fluxo global da droga.
As notas praticamente empatadas entre Brasil, México, Peru e Venezuela, todas em 9,00, também mostram que não existe um único elo mais fraco na cadeia internacional da cocaína. Fragilizar apenas um desses países, sem uma resposta coordenada nos demais, tende a apenas deslocar o fluxo da droga para outra rota, mantendo o volume geral de tráfico em patamares parecidos, mas mudando o caminho que ele percorre até chegar aos mercados consumidores da Europa e da América do Norte.
O que a ONU propõe para enfrentar o tráfico de drogas
A Organização das Nações Unidas, principalmente por meio do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, defende uma mudança profunda na estratégia global de combate ao tráfico de drogas. A entidade propõe o fim do modelo puramente punitivo, conhecido como guerra às drogas, em favor de uma abordagem centrada em direitos humanos, saúde pública e cooperação internacional para enfraquecer as redes de crime organizado.
Entre as diretrizes defendidas pela ONU está o tratamento como alternativa à prisão para usuários e dependentes químicos, com foco em prevenção, tratamento baseado em evidências científicas e reabilitação, tratando o consumo como questão de saúde pública, e não apenas de segurança. A entidade também recomenda políticas de redução de danos, voltadas a minimizar riscos sociais e de saúde associados ao uso de drogas, como infecções e overdoses, reduzindo a marginalização de quem usa essas substâncias.
Essa mudança de enfoque, de uma lógica majoritariamente penal para uma lógica de saúde pública, é apresentada pela ONU como caminho para reduzir a pressão sobre o sistema prisional sem abrir mão do combate às organizações criminosas que lucram com o tráfico de drogas. A separação entre usuário e traficante, nesse modelo, se torna central, já que a resposta recomendada para cada um dos dois perfis é fundamentalmente diferente.
Ao propor esse modelo, a ONU reconhece implicitamente que a resposta apenas punitiva, adotada por décadas em diversos países, não conseguiu reduzir de forma sustentada o volume global do tráfico de drogas. Os próprios números do Brasil, com recorde de ocorrências mesmo diante de apreensões relevantes, ilustram esse limite, indicando que prender mais pessoas não necessariamente corresponde a enfraquecer as estruturas que sustentam o comércio ilegal de entorpecentes.
Combater o tráfico de drogas exige mais que prisão
No campo do combate estruturado ao crime organizado, a ONU defende a intensificação das investigações contra lavagem de dinheiro, crimes econômicos e corrupção, elementos que sustentam financeiramente as grandes redes de tráfico de drogas. A entidade também recomenda o fortalecimento do monitoramento e combate às redes de distribuição online, incluindo plataformas na chamada dark web, e ao comércio de drogas sintéticas, uma frente que cresce em paralelo às rotas tradicionais de contrabando.
Já no campo da justiça criminal, a orientação da ONU é por punições proporcionais aos crimes relacionados a drogas, com o fim da pena de morte para casos de narcotráfico e foco na responsabilização dos líderes das organizações criminosas, em vez da criminalização de usuários e de pessoas em situação de vulnerabilidade social.
A combinação dessas três frentes, saúde pública, combate financeiro ao crime organizado e proporcionalidade penal, forma o eixo central da proposta internacional para lidar com o tema. No caso brasileiro, essa abordagem esbarra num desafio adicional, o de um país que combina, ao mesmo tempo, mercado consumidor relevante, rota estratégica de exportação e presença consolidada de facções que disputam território para controlar o fluxo da droga, o que torna qualquer solução única insuficiente diante da complexidade do problema.
Os números mais recentes de ocorrências, apreensões e a posição do país no ranking internacional de crime organizado formam, juntos, um retrato que dificilmente vai mudar de patamar sem uma combinação de políticas de segurança, saúde pública e cooperação internacional atuando ao mesmo tempo, cada uma cobrindo uma parte diferente da engrenagem que sustenta o tráfico de drogas no Brasil e na região.
Tourdabel