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Homicídio no Brasil cai à menor taxa em uma década, mas percepção segue outro caminho

Homicídio é o indicador mais usado para medir a violência letal de um país, e o Brasil registrou, em 2024, o menor patamar desse indicador em dez anos. Segundo o Ministério da Saúde, foram 42.590 homicídios registrados oficialmente no país naquele ano, o equivalente a uma taxa de 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes. O dado consolida uma trajetória de redução que começou em 2018, segundo o Atlas da Violência, publicação de referência sobre o tema no Brasil.

Apesar da melhora nesse indicador, o debate nacional sobre criminalidade e a percepção de insegurança da população seguiram, em 2024 e 2025, um caminho oposto ao da estatística de homicídio, como mostram pesquisas de opinião citadas pelo próprio Atlas da Violência. Entender por que essas duas leituras se afastam exige olhar tanto para os números do homicídio quanto para outros indicadores de segurança pública que cresceram no mesmo período.

A queda do homicídio em diferentes janelas de tempo

A redução do homicídio no Brasil aparece em praticamente todas as janelas de comparação analisadas pelo Atlas da Violência. Entre 2023 e 2024, o número absoluto de homicídios caiu 6,9%, e a taxa nacional recuou 7,4%. Numa janela de cinco anos, entre 2019 e 2024, a queda foi de 8,6% na taxa e de 6,4% no total de vítimas.

No horizonte mais longo, entre 2014 e 2024, a taxa nacional de homicídio caiu 33,4%, e o número absoluto de mortes reduziu 29,6%. Essa sequência de quedas em diferentes períodos, curto, médio e longo prazo, é o que sustenta a leitura de que a redução da violência letal no Brasil não é um resultado isolado de um único ano, mas uma tendência que se mantém, ainda que de forma heterogênea entre os estados.

O fato de a taxa ter caído mais do que o número absoluto de mortes em todas essas janelas de comparação também diz algo sobre a população brasileira no período. Como a taxa é calculada dividindo o número de homicídios pela população, uma queda proporcionalmente maior na taxa do que no número absoluto de mortes indica que a população do país seguiu crescendo enquanto a violência letal recuava, o que reforça o tamanho real da melhora observada entre 2014 e 2024.

Amapá, Bahia e Pernambuco lideram as maiores taxas

A distribuição territorial da violência letal no Brasil segue desigual. Em 2024, 18 das 27 unidades da federação apresentaram taxa de homicídio acima da média nacional de 20,1 por 100 mil habitantes. Os maiores indicadores foram observados no Amapá, com 45,7, na Bahia, com 40,9, em Pernambuco, com 37,3, em Alagoas, com 35,9, e no Ceará, com 34,3.

Na outra ponta, os menores níveis de violência letal em 2024 foram registrados em São Paulo, com 6,6, em Santa Catarina, com 8,1, no Distrito Federal, com 10,3, em Minas Gerais, com 12,8, e no Rio Grande do Sul, com 15,2. A diferença entre o estado com a maior e o com a menor taxa chega a quase sete vezes, o que mostra que falar em um único número nacional de violência letal esconde realidades muito distintas dentro do país.

Colocar lado a lado o Amapá, com taxa de 45,7, e São Paulo, com 6,6, ajuda a dimensionar essa distância: um morador do Amapá enfrentou, em 2024, um risco de morte por violência letal quase sete vezes maior do que um morador de São Paulo. Essa distância entre os dois extremos da tabela é maior do que a própria queda nacional acumulada entre 2014 e 2024, o que reforça que o problema do homicídio no Brasil precisa ser tratado, antes de tudo, como um conjunto de realidades estaduais distintas, e não como um fenômeno homogêneo.

Quem subiu e quem caiu mais entre 2023 e 2024

Entre as unidades da federação, apenas Maranhão e Ceará registraram aumento relevante na taxa entre 2023 e 2024, de 7,6% e 5,2%, respectivamente, enquanto São Paulo permaneceu estável no período. As quedas mais intensas na taxa ocorreram no Amapá, de 30%, em Tocantins, de 26,7%, em Sergipe, de 24,8%, em Roraima, de 22,8%, e no Acre, de 20,5%.

Em números absolutos de vítimas, as maiores reduções entre 2023 e 2024 aconteceram no Rio de Janeiro, com 772 casos a menos, na Bahia, com 555, no Rio Grande do Sul, com 280, em Goiás, com 229, e no Amazonas, também com 229 casos a menos. São movimentos expressivos, que ajudam a puxar a média nacional para baixo mesmo com o aumento pontual registrado em Maranhão e Ceará.

Somando apenas essas cinco quedas mais expressivas em números absolutos, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, Goiás e Amazonas responderam, juntos, por 2.065 homicídios a menos entre 2023 e 2024. Isso mostra que boa parte da melhora do indicador em nível nacional se concentra no desempenho de um grupo relativamente pequeno de estados, e não em uma queda uniformemente distribuída entre as 27 unidades da federação.

Vale notar que a Bahia aparece nas duas pontas dessa análise: é um dos estados com maior taxa de homicídio do país em 2024, mas também um dos que mais reduziu o número absoluto de vítimas entre 2023 e 2024, o que mostra que mesmo um patamar elevado de violência letal pode conviver com avanços consistentes de um ano para o outro.

Nos últimos cinco anos, alguns estados fogem da tendência

Quando a janela de análise passa a ser 2019 a 2024, o quadro fica mais contrastado. Enquanto o Brasil reduziu sua taxa de violência letal em 8,6% no período, Ceará, Maranhão, Piauí, Rondônia e Mato Grosso tiveram aumento na taxa, de 28%, 25,9%, 20,5%, 15,2% e 14,1%, respectivamente. Em sentido inverso, os maiores recuos no mesmo período ocorreram no Acre, de 47,9%, em Sergipe, de 47%, em Goiás, de 43%, no Rio Grande do Norte, de 40,8%, e no Distrito Federal, de 38%.

Chama atenção o fato de que apenas Distrito Federal, Goiás e Santa Catarina conseguiram reduções anuais sucessivas da taxa de violência letal em todos os anos entre 2019 e 2024, um resultado mais raro do que a simples comparação entre o primeiro e o último ano da série pode sugerir.

Capitais concentram parte das maiores taxas do país

As capitais brasileiras registraram, em 2024, taxas de violência letal entre 9,7 e 52,7 por 100 mil habitantes, com média de 26,6 entre as 27 capitais, acima da média nacional. Do total de capitais, 14 tiveram taxa superior à referência nacional de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes usada nessa comparação específica.

As maiores taxas de homicídio entre as capitais foram observadas em Salvador, com 52,7, em Maceió, com 45,9, em Macapá, com 45,6, no Recife, com 45,5, e em Fortaleza, com 42,2. As menores ocorreram em Florianópolis, com 9,7, no Distrito Federal, com 10,9, em Curitiba, com 13,2, em Goiânia, com 14,7, e em São Paulo, com 15,3.

Vale notar que a taxa de uma capital não corresponde necessariamente à taxa média do estado inteiro. São Paulo, por exemplo, tem taxa estadual de 6,6 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas do país, mas a capital paulista aparece com taxa de 15,3, mais que o dobro do indicador estadual. Isso mostra que a violência letal pode se concentrar de forma diferente dentro de um mesmo estado, dependendo da densidade populacional e de outros fatores urbanos que fogem ao recorte estadual.

O mesmo tipo de descolamento aparece no Distrito Federal, cuja taxa estadual de 10,3 é próxima da taxa de sua própria capital, de 10,9, um padrão distinto do observado em São Paulo e que reforça a importância de olhar para o dado municipal, e não só para a média estadual da violência letal.

Por que a percepção de insegurança não acompanha a queda

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ajuda a explicar por que a queda do homicídio não se traduz automaticamente em sensação de segurança. Entre 2018 e 2024, enquanto o número de roubos reportados à polícia caiu à metade, os casos de estelionato, sobretudo os estelionatos virtuais, mais do que quintuplicaram no mesmo período.

Esse crescimento acompanha a expansão das transações bancárias feitas por aplicativos de celular e internet banking, cuja participação no total de transações bancárias saltou para 81,5% entre 2020 e 2024. Uma estatística de violência letal em queda convive, assim, com outro tipo de crime crescendo rapidamente, o que ajuda a explicar por que a percepção da população sobre segurança não melhora no mesmo ritmo dos números de mortes violentas.

Esse descompasso entre a estatística de violência letal e a percepção de segurança não é exclusivo do Brasil, mas ganha contornos específicos aqui pela combinação entre uma queda consistente de longo prazo na violência letal e um crescimento igualmente consistente de crimes patrimoniais praticados por meios digitais, que afetam uma parcela maior e mais visível da população do que o crime letal, concentrado em determinados perfis e regiões. Enquanto essa violência atinge, sobretudo, um recorte específico da população, o estelionato virtual pode alcançar qualquer pessoa com acesso a conta bancária digital, o que ajuda a explicar por que esse tipo de crime pesa tanto na sensação geral de insegurança.

Por que a qualidade dos dados varia entre estados

O próprio Atlas da Violência reconhece que a piora na qualidade dos dados em algumas unidades da federação prejudica a mensuração da violência letal nesses estados específicos, o que exige cautela ao comparar diretamente todas as 27 unidades da federação entre si. Ainda assim, o conjunto de indicadores nacionais e a maioria dos recortes estaduais analisados apontam na mesma direção, de um país que reduziu a violência letal de forma consistente na última década, com exceções pontuais que merecem acompanhamento nos próximos anos.

Essa ressalva sobre qualidade de dados não muda o sinal geral da série histórica, mas ajuda a explicar por que comparações estado a estado devem ser lidas com mais cautela do que a tendência nacional como um todo. Um país de dimensões continentais como o Brasil tem processos de registro de óbitos que variam de capacidade entre as unidades da federação, o que pode afetar tanto a magnitude quanto a velocidade com que uma mudança na violência letal aparece nos números oficiais de cada estado.

Homicídio não é a única frente da segurança pública

O Mapa da Segurança Pública, outro documento oficial sobre o tema, mostra que a queda desse indicador acontece ao mesmo tempo em que outros indicadores de segurança pública seguem trajetória de alta. Em 2025, o Brasil registrou 215.716 ocorrências de tráfico de drogas, o maior valor da série histórica, um aumento de 17,05% sobre 2024. No mesmo ano, o país apreendeu 1.454.133 quilos de maconha, alta de 3,10% sobre 2024, e 127.552 quilos de cocaína, queda de 8,39% no mesmo intervalo.

As motocicletas, por sua vez, respondem por mais de 40% das mortes no trânsito brasileiro em 2024, na maioria das unidades da federação, uma participação que era inferior a 5% no início dos anos 2000. Esse modal registrou o maior crescimento absoluto de óbitos entre 2023 e 2024, de 13.477 para 15.459 mortes, mais um indicador de segurança pública que caminha em direção oposta à do homicídio no mesmo período. Reunidos, esses números mostram que a violência letal medida pelo homicídio é apenas uma parte de um quadro mais amplo de segurança pública no Brasil, que inclui também o tráfico de drogas e a mortalidade no trânsito como frentes que não acompanham a mesma trajetória de queda.

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